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Hipocondria, com humor

  • Foto do escritor: silvestreale3
    silvestreale3
  • 12 de jun. de 2022
  • 6 min de leitura

Éramos quatro: Jorge, Guilherme Samuel Harris, eu e Montmorency - o meu fox-terrier. Reunidos no meu quarto, fumávamos, enquanto conversávamos sobre as más condições em que nos encontrávamos. Más, sob o ponto de vista da saúde,está claro.

Sentíamo-nos todos quatro bastante fatigados, o que muito nos preocupava. Harris declarou que lhe davam, por vezes, umas estranhas vertigens e quase perdia a consciência dos seus actos. Jorge disse que também sentia, alguns dias, a cabeça tonta e não sabia então, por assim dizer, o que fazia. Quanto a mim, era o fígado que funcionava mal, pois acabara justamente de ler o reclamo de uma especialidade farmacêutica para tratamento daquela víscera, no qual se discriminavam os diversos sintomas que permitem reconhecer se temos ou não o fígado escangalhado. Percorri todos, pormenorizadamente.

É curioso, mas não posso ler um anúncio de qualquer medicamento sem concluir que sofro precisamente da doença em questão e logo na sua forma mais perigosa. O diagnóstico parece-me sempre corresponder, de maneira exacta, a todos os sintomas que julgo manifestar.

Lembro-me de ter ido um dia ao Museu Britânico, para colher umas informações sobre o tratamento de ligeira indisposição de que me queixava...Tratava-se, creio eu, da asma dos fenos. Trouxeram-me o livro respectivo, e eu li o artigo todo que me interessava. Em seguida, num momento de distracção, pus-me a folhear o livro e, maquinalmente, a estudar todas as doenças, umas depois das outras. Não sei já por qual comecei - era, no entanto, um flagelo devastador - mas, ainda mesmo antes de ter percorrido metade da lista dos sintomas premonitórios…estava absolutamente convencido de que tinha, realmente, apanhado a doença terrível.

Primeiro, senti-me gelar de puro horror. Depois, no abandono do desespero, recomecei a folhear o livro inteiro. Cheguei à febre tifóide. Li os sintomas.

Descobri imediatamente que tinha uma febre tifóide e que devia já sofrer há

muitos meses dessa doença, sem o saber! Pensei que mais doenças poderia ter ainda. Cheguei à página da doença de S. Vito - e verifiquei, como já esperava, que também ela me apoquentava. Era um caso deveras interessante! Resolvi esclarecer o assunto, e recomecei, desde o princípio, por ordem alfabética: li o artigo dedicado à alopecia, e persuadi-me de que já tinha sido atingido e que operíodo agudo devia declarar-se dentro de uns quinze dias. Da doença de Bright, conforme supus, com alívio, sofria apenas numa forma benigna, e, por esse lado, podia viver ainda muitos anos. Da cólera, graves complicações me apoquentavam e a difteria era mal que me não largava desde que nascera. Assim, percorri conscienciosamente, do princípio ao fim, as vinte e seis letras do alfabeto, e concluí que a única doença a que me conservava alheio era a hidrartrose das criadas de servir!

Senti-me, de começo, um pouco vexado. Por que razão não tinha eu a hidrartrose das criadas de servir? Porquê esta falta estranha? Isto parecia-me quase injusto. Mas, passado um momento, reprimi as minhas aspirações demasiado exigentes. Reflecti que possuía já a colecção completa de todas as outras doenças conhecidas e, num sentimento menos egoísta, resignei-me a dispensar a hidrartrose das criadas de servir.

A gota, na sua forma mais perniciosa, tinha-se apoderado de mim, sem que eu o soubesse e de zimose sofria evidentemente desde a minha adolescência. Sendo a zimose a última doença do livro, concluí que não sofria de mais nada. Já não era sem tempo ...

Fiquei a meditar. Que caso tão interessante eu devia ser para a medicina! Que bela aquisição para o curso de um professor! Os estudantes escusariam de «correr pelos hospitais» se me tivessem à mão! Eu valia, por mim só, um hospital! Bastar-lhes-ia virarem-me, auscultarem-me, apalparem-me de todos os lados, e em seguida poderiam tirar o seu diploma!

Como é natural, quedei-me a calcular quanto tempo ainda teria de vida. Tentei fazer o meu próprio exame médico. Tomei o pulso a mim mesmo. Primeiro não consegui senti-lo bater. Depois, de repente, tudo se normalizou. Puxei do relógio e cronometrei as pulsações. Contei cento e quarenta e sete por minuto. Tentei auscultar o ritmo do coração. Impossível! Impossível! Tinha parado. Convenci-me, de então para cá, que ele devia, realmente, estar dentro do meu peito, a palpitar. Mas não o garanto. Apalpei toda a frente do meu corpo, desde a cintura à cabeça, ambos os lados, e um pouco mais acima, nas costas. Mas não consegui sentir nem ouvir o quer que fosse. Tentei ver a minha língua. Esticando-a o mais que pude, fechei um olho e tentei examiná-la com o outro. Apenas consegui ver-lhe a ponta, e a única vantagem que daí tirei foi a de mais me persuadir de que sofria, realmente, de escarlatina.

Ao entrar naquela sala de leitura, eu era um homem feliz e saudável. Saí de lá

dobrado ao meio, todo curvado. Era um farrapo miserável.

Fui ter com o meu médico, um dos meus velhos camaradas, que me tomou o pulso, olhou-me a língua, falou-me de chuva e de bom tempo, tudo isto grátis, quando eu imaginava estar doente eu pensava então que era um serviço que lhe prestava indo ter com ele. «O que um médico precisa, dizia eu, é de prática. Para isso ofereço-lhe a minha pessoa. Terá comigo mais prática do que com cento e dezassete dos seus doentes vulgares, que não têm cada um mais do que duas doenças. »

Cheguei, portanto, ao seu consultório, todo satisfeito, e, ao ver-me, ele

perguntou-me:

- Então que tens tu? E eu respondi-lhe:

- Não te faço perder tempo, meu velho, a contar-te o que tenho. A vida é breve e corrias o risco de desaparecer antes que eu acabasse. Prefiro dizer-te o que não

tenho. Não sofro da hidrartrose das criadas de servir. Porque é que a hidrartrose das criadas de servir me não atacou, não sei mas o facto é que disso não sofro. À parte esta doença, sofro de todas as outras.

E contei-lhe largamente como chegara a esta conclusão. Então, mandou-me mostrar a língua e tomou-me o pulso. Quando eu menos esperava, deu-me uma pancada no peito - eu chamo a isto apanhar as pessoas à traição - e logo em seguida auscultou-me. Depois, sentou-se, escreveu uma receita, dobrou-a e entregou-ma.

Eu meti-a na algibeira e saí. Nem a desdobrei. Dirigi-me à farmácia mais perto e dei a receita ao farmacêutico. Ele leu a receita e tornou a dar-ma, dizendo-me que não tinha aqueles remédios.

E eu perguntei-lhe:

- O senhor é farmacêutico? Ele respondeu-me:

- De facto, sou farmacêutico. Se fosse uma cooperativa de venda e uma pensão de família, talvez me julgasse capaz de aviar a receita. Sendo apenas farmacêutico, é-me absolutamente impossível.

Li a receita. Dizia assim:

Um bife de meio quilo, mais meio litro de cerveja preta de seis em seis horas.

Um passeio de quinze quilómetros todas as manhãs. Uma cama para dormir às onze horas em ponto, todas as noites. E não meta na cabeça coisas de que nada entende.

Segui as instruções com o feliz resultado - quer dizer, feliz para mim - de salvar a minha vida, 'que, felizmente, continua ...

No caso presente, voltando ao reclamo das pílulas para o fígado, eu tinha bem evidentes os sintomas hepáticos, dos quais o principal é uma imensa aversão ao trabalho, sob qualquer forma.

E o que eu cheguei a sofrer sob esse aspecto, não há palavras que o descrevam.

Desde tenra idade, tem sido para mim um martírio. Quando estava na escola, nunca essa doença me abandonou um só dia. E ninguém sabia a causa: era do fígado. A medicina estava então muito menos desenvolvida do que hoje, e atribuíam isso à preguiça.

Diziam-me:

«Mas que diabo, pequeno mandrião, vê se espertas! Não serás homem para ganhar um dia a tua vida?» Não sabiam, é claro, que eu era doente. E, em vez de me darem pílulas, davam-me sopapos. E, embora pareça esquisito, muitas vezes esses sopapos curavam-me - por uma hora. Alguns desses socos actuaram mais no meu fígado e deram-me um maior desejo de meter mãos ao trabalho imediatamente de que o faz agora uma caixa inteira de pílulas.

E é assim muitas vezes: os simples remédios caseiros são, em certos momentos, mais eficazes do que todas as drogas da farmácia.


Jerome K. Jerome - Três Homens Num Bote

 
 
 

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