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O Medo Devora A Alma

  • Foto do escritor: silvestreale3
    silvestreale3
  • 16 de jun. de 2022
  • 2 min de leitura

Nos anos 70, um filme de Fassbinder abordava a questão do medo sob a perspectiva da intolerância à diferença. À volta de uma relação amorosa entre uma alemã sexagenária viúva e o seu jovem amante muçulmano, Fassbinder convoca em nós - mediante as personagens que interagem com o improvável casal - não só as angústias mais primárias e as projeções face ao desconhecido, como as defesas de triunfo e posse por mecanismos de assimilação e “domesticação” da diferença.

O que nos leva a desconfiar do outro cujos costumes não conhecemos, e o que faz crepitar as fogueiras da xenofobia, quando se esbate a linha ténue que separa esse medo do ódio?

Qual é o preço que se paga por ser marginal,por se pertencer a uma minoria, por desafiar as normas da sociedade? Quanto custa, no quotidiano, ser parte de um grupo desvalorizado? Porque se recusam com tanta ferocidade culturas, religiões, modos de vida dos quais tão pouco se sabe? Porque são tão rígidas e inflexíveis as normas que sancionam quais são as relações permitidas e as identidades possíveis?

Quando a mente é dominada por pré-conceitos, não há espaço para a transformação nem para o conhecimento.

Se nos deixamos invadir pelo medo que põe em causa as nossas próprias fronteiras, é porque é bem frágil o que estamos a tentar proteger.

Se o contacto com o estrangeiro, ao invés de gerar uma curiosidade sã que promova o encontro e o enriquecimento mútuo, cria desconfiança, ódio e agressividade, é porque tendemos a arranjar bodes expiatórios, a projectar nos outros aquilo que mais tememos reconhecer no espelho.

Pelo preconceito reduz-se o Outro a um estereótipo, a uma caricatura a traço grosso que lhe acentua as características atribuídas e lhe retira subjetividade e dignidade. Consegue-se, assim, iludir a falha narcisica, e ignorar que a ameaça vem de dentro.

É sabido que em tempos de crise florescem fundamentalismos populistas de toda a espécie. É fácil apelar a instintos básicos e às partes mais primitivas e psicóticas da mente. É por isso, mais do que nunca importante, que nos juntemos para promover encontros, diálogos, empatia e pensamento. Para dar lugar à diversidade, voz aos excluídos, visibilidade aos que vivem na sombra.

Como espécie, somos seres gregários, essa característica faz parte intrínseca da nossa evolução. Aqueles que advogam a lei do mais forte, numa adaptação literal da teoria de Darwin, não percebem que o que nos torna mais aptos para a sobrevivência não é a competição, mas sim a cooperação.

Combatendo os totalitarismos, questionando quem nos oferece certezas, construindo pontes - que se tornem pontos de convergência multidisciplinar na abordagem fenomenógica, intersubjectiva e ética que respeita e não teme a alteridade, poderemos continuar a sonhar um futuro, mesmo quando o horizonte mais próximo parece tão carregado de nuvens sombrias.


Alexandra Silvestre Coimbra


(Texto escrito para “Com o Credo na Boca”, o podcast da Sociedade Portuguesa de Psicossomática)

Ilustração de Hernan Bas

 
 
 

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